As relações humanas ganharam um novo patamar com o advento das redes sociais. Hoje podemos considerar que temos duas identidades: a nossa identidade vivida fora e dentro das redes. Mas também essa nova interação não deixa de ser uma extensão de nós mesmos partindo do real para o idealizado. Viver em sociedade é tentar se adaptar ao que está acontecendo. 

Porém a forma como o indivíduo conduz e administra sua própria vida fora ou dentro da rede é que deve ser observado, se essa pessoa usa em excesso, sem compreender e sem ter um domínio, com certeza ela terá consequências negativas, ao contrário de uma pessoa que tem consciência, preocupação e controle referente ao seu uso das redes sociais.  Enfim, independente do momento é importante questionar se se trata de uma interação consciente ou uma interação alienada.

A psicóloga Kátia Batista Inácio afirma que a segurança existe quando se conhece as consequências de algo, o excesso, o não conhecimento e a falta de autoconhecimento está levando a sociedade atual a um adoecimento coletivo bem descrito pelo conceito do sociólogo polonês Zygmunt Bauman de modernidade líquida. “Estamos na era do imediatismo, do excesso de informação, dos ‘formadores de opinião’, excessos de estímulos e isso por si só já é adoecedor”, conclui

A sociedade também sofre impactos com essa transformação. A comunicação mudou, hoje as ligações são feitas somente em extrema necessidade, normalmente mandamos uma mensagem. Conforme o professor de Sociologia da UPF, Ivan Dourado, nem todas as transformações são positivas. “Em relação a constituição da democracia, principalmente com a questão da circulação de Fake News, de informações tóxicas que distorcem a realidade e causam enfraquecimento na democracia e nas instituições sociais”, salienta Dourado.

“Estamos na era do imediatismo, do excesso de informação, dos formadores de opinião, excessos de estímulos e isso por si só já é adoecedor”

Parece uma ação inofensiva ficar muitas horas nas redes sociais, porém essa prática é uma das causas das tantas doenças psicológicas. Conforme a OMS, 5,8% da população brasileira sofre de depressão .Esse índice tem várias causas, porém conforme pesquisadores o agravante acaba sendo também o excesso.

Um documentário que fala muito bem sobre essa dependência em redes sociais é O Dilema das Redes, disponível na Netflix. “Após assisti-lo fiquei pensando na relação que estabelecemos com as redes sociais e como podemos entrar em um modo automático, não questionando os danos que podem nos trazer”, afirma Kátia.

Além das doenças psicológicas já conhecidas como ansiedade, depressão, stress, impulsividade, Dourado acredita que já está aparecendo novas síndromes relacionadas ao vício em redes sociais. “Já temos processos além da dependência do próprio aplicativo, problemas de dificuldade para dormir, de interação social presencial, de conseguir focar no que está acontecendo presencial sem estar preocupado com o que tá acontecendo com os aplicativos.”            

Os usos das redes sociais, nessas situações, são utilizados como fuga de uma realidade difícil, ou até mesmo na construção de uma realidade idealizada. Para essas pessoas, acaba sendo uma anestesia para lidar com a dor e sofrimentos reais. “A questão é que não deixaremos de consumir tecnologia, isso já é um caminho sem volta. Mas é possível perceber se ela vem causando adoecimento ou vício que leva a não conseguir utilizá-la. E percebendo isso, encontrar estratégias para ter uma relação menos danosa.”, conclui Kátia.

                        Por Fernanda Machado e Adenilson Gois