Para ter acesso aos conteúdos digitais, o leitor precisa assinar o veículo, caso contrário, “dá de cara” com o paywall (Reprodução: Divulgação)

O mercado digital cria oportunidades todos os dias e tem se mostrado capaz de resolver desafios considerados intransponíveis. Um bom exemplo, mais recente, é do jornalismo. Com o dinamismo da Internet, as mídias impressas entraram em decadência e precisaram começar a usar do meio digital, mas desafios também foram encontrados nesse meio e para conseguir se manter relevante o jornalismo aderiu ao paywall.

O termo paywall em inglês, pode ser traduzido como “muro de pagamento”, trata-se de uma restrição na qual os visitantes de um site que desejam acessar seu conteúdo devem pagar por isso.

“Só a pandemia e os casos de calamidade pública e/ou sanitária que necessitam da garantia do direito à informação de qualidade? A cobertura do dia a dia na sociedade não é de interesse público sempre?”

– João Vicente Ribas, Doutor em Comunicação

Em geral, o paywall funciona em modelo de assinatura, ou seja, o usuário paga uma mensalidade fixa para ter acesso ao conteúdo, total ou em partes. Há várias formas de aplicar o paywall, e muitas grandes empresas já têm usado essa solução para aumentar as receitas e acabar com o mito de que não é aceitável pagar por conteúdo na Internet.

Roger Nicolini, formado em Jornalismo e atualmente Assessor de Imprensa da Cooperativa Tritícola de Espumoso – Cotriel, diz que o jornalismo precisa de outras fontes para se financiar, patrocinadores, por exemplo. Uma vez que o veículo de comunicação tem seus custos e precisa gerar recursos para pagá-los. 

“O paywall foi a solução encontrada para o jornalismo se adaptar às mídias digitais com o passar dos anos”, afirma Nicolini.

Mas ao mesmo ele limita o trabalho do jornalista e limita a mensagem a apenas alguns receptores. João Vicente Ribas, Doutor em Comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), afirma que a pandemia de Covid-19 colocou em debate a questão do paywall em conteúdos de interesse público.

“A pandemia de Covid-19 colocou esta questão urgente em debate, principalmente no seu início, quando não sabíamos muito sobre o vírus, nem sobre as formas de prevenção. Boa parte do jornalismo tradicional derrubou o paywall temporariamente, deixando de restringir a leitura para artigos sobre a pandemia. Certamente foi uma decisão correta e que gerou outras perguntas que podemos começar a fazer agora. Por exemplo: só a pandemia e os casos de calamidade pública e/ou sanitária que necessitam da garantia do direito à informação de qualidade? A cobertura do dia a dia na sociedade não é de interesse público sempre? Então de que forma podemos trabalhar para que o jornalismo seja fortalecido e esteja ao alcance de todos? Cobrar paywall parece não ser a resposta.”

A Folha de São Paulo é um dos exemplos que colocou o paywall de lado em todo conteúdo relacionado à covid-19 um dia após a OMS decretar o início da pandemia no mundo e mesmo após quase dois anos o conteúdo continua disponível para não assinantes. O jornal também criou uma página com todos os textos liberados.

É possível encontrar na internet sites que retiram o paywall das publicações digitais, ainda que de tempos em tempos sejam tirados do ar pelo Google por violar direitos autorais.

Mas, atualmente é possível fazer jornalismo sem paywall?

João Vicente diz que sim. “Outra forma emergente de financiamento está nos apoios mensais/anuais ao projeto editorial, ou nas campanhas de financiamento coletivo. Enquanto o conteúdo é aberto a todos que quiserem ler, os que acreditam no jornalismo e desejam apoiá-lo, mesmo sem ter uma compensação material por isso, constituem a base de sustentação econômica de alguns veículos digitais, a exemplo da Agência Pública. Esse tipo de relacionamento com os leitores fortalece o compromisso com os princípios jornalísticos, pois o que leva alguém a apoiar é a convicção de que o jornalismo é essencial e precisa ser feito, em nome de princípios democráticos e humanistas. Se não, não o faria. Mas também é comum que este tipo de veículo jornalístico tenha sua renda complementada por doações de instituições que prezam pelos mesmos valores, o que diversifica o financiamento. “

Por Júlia Kopp e Luana Signor