A crise financeira provocada pelo coronavírus agravou um cenário já iminente na realidade de 75% das pequenas empresas nacionais do ramo de alimentos e bebidas. De acordo com a segunda edição da pesquisa “O impacto da pandemia de corona vírus nos Pequenos Negócios”, realizada em abril de 2020 pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), antes mesmo da pandemia eclodir, cerca de 12,6 milhões de empresas consideravam suas finanças em estado ruim e/ou razoável. Com o aumento do número de casos registrados e o consequente agravamento da situação, 31¨% delas precisaram mudar o seu funcionamento, adotando novas formas de atuar no mercado através do trabalho remoto, da redução de horários e do rodízio de funcionários, e 58,9% tiveram que interromper as atividades de forma temporária em decorrência dos protocolos de prevenção à Covid-19.

Para as colaboradoras do Sebrae RS, Ana Paula Moro Stefanello, analista de relacionamento com cliente, e Caroline Betencourt da Silva, analista de articulação de projetos, o impacto agressivo da pandemia no setor não se refletiu somente na questão financeira. Além das perdas expressivas, as analistas também apontam a dificuldade de encontrar matérias-primas e de suprir custos com pessoal, aluguel e capital de giro como fatores agravantes da crise no período. Contudo, dados da Receita Federal mostram que houve um crescimento no número de Microempreendedores Individuais (MEIs) no município de Passo Fundo, interior do Rio Grande do Sul, de 2019 para cá.

Em 31 de dezembro de 2019, o número de Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJs) MEIs era 12.636. Na mesma data, em 2020, passou para 14.940 e em outubro de 2021 já estava em 16.893. Segundo Ana Paula e Caroline, esse aumento não se refere somente aos serviços vinculados à alimentação. “O que se observa é que, em virtude da pandemia, muitas pessoas começaram a empreender por necessidade, sendo o segmento de alimentação uma das opções devido à familiaridade e à possibilidade da formalização do negócio através do MEI, como uma forma mais acessível e prática”, explicam.

Além do empreendedorismo por necessidade, a crise também pode “apresentar novas oportunidades, tornando algumas ideias em bons negócios”, comenta Ana Paula.

“Independente do empreendedorismo ser por necessidade ou oportunidade, o importante é o modelo de negócio propor ao mercado produtos ou serviços que tragam diferencial competitivo, seja em tempo de crise ou não.”

Ana Paula Moro Stefanello, Analista de Relacionamento com Clientes – Sebrae RS

Um exemplo de empreendedorismo de oportunidade é a Ma.Cookies Bolachas Personalizadas, empresa familiar passo-fundense que surgiu em 2020 como um passatempo e hoje em dia realiza entregas para todo o Brasil.

Marina Gavioli Morales, proprietária da Ma.Cookies, conta que a grande incentivadora do seu trabalho foi sua mãe, Beatriz Paula Gavioli, que há muito tempo já tinha vontade de fazer bolachas decoradas de Natal e não encontrava um curso específico para isso. Então, decidida a colocar a mão na massa, comprou todos os ingredientes necessários para a produção caseira e convidou a filha para participar da experiência. Marina aceitou a proposta e transformou a oportunidade em geração de renda. Aos poucos, ela foi pegando o jeito do glacê e surpreendeu a mãe com as artes que começou a fazer.

A mãe de Marina logo levou os produtos para as amigas em jantas e também como forma de presente. Foi quando começaram a surgir as primeiras encomendas. Contudo, o grande estopim foi em março, no Dia da Mulher. “Foi quando a gente começou de verdade”, relata Marina.

Somente nesta data, elas produziram mais de 1.500 unidades de bolachas personalizadas na cozinha de casa. Beatriz conta que eram pedidos grandes, de lojas e empresas, e que elas não estavam esperando toda essa quantidade de encomendas. Nesse momento, elas se deram conta de que, para continuar, precisariam se adaptar e investir em eletrodomésticos e embalagens. Compraram batedeira, forno elétrico e caixas para armazenar os produtos. No mais, utilizaram o que já tinham em casa. Desde então, as encomendas não param e elas já possuem clientes em diferentes regiões do estado e do país.

Além de bolachas personalizadas, a @ma.cookiespersonaliza também trabalha com encomendas de brownies e pães de mel.

No que refere-se à administração, mãe e filha dizem estar testando alguns métodos, mas ainda encontram dificuldades para gerenciar o fluxo de caixa. “Como foi tudo muito novo, tem muitas coisas que a gente ainda precisa parar para olhar com calma e melhorar”, diz Marina.

Formada em Estética e Cosmética pelo Centro Universitário IBMR do Rio de Janeiro, Marina conta que hoje em dia ainda realiza alguns atendimentos na área, mas que a sua maior fonte de renda provém da Ma.Cookies. Para ela, a pandemia trouxe consigo a oportunidade de descobrir novas habilidades e promoveu a valorização do que é feito em casa.

Por Thaiane de Almeida da Silva