Somente em Passo Fundo, mais de 6 mil ocorrências de ameaças foram registradas pela Lei Maria da Penha, nos últimos cinco anos

O ciúme excessivo que beira à ameaça, a chantagem emocional, a exposição da vida íntima sem autorização, as humilhações, a perseguição, a interferência no direito de ir e vir. Nem toda violência deixa marcas físicas. Muitos dos tipos de violência podem, aliás, deixar marcas muito piores: as marcas emocionais e psicológicas, que têm processo de cicatrização ainda mais longo, senão eterno.

A violência psicológica é definida na Lei Maria da Penha (n°11.340/2006) como qualquer conduta que cause danos emocionais à vítima e está presente em praticamente todos os casos de violência contra a mulher. Aparece de forma sutil, na desvalorização, na depreciação, nas piadas machistas mascaradas de humor e na insistente culpabilização da mulher, mesmo quando é ela a vítima.  Na maior parte dos casos, a violência psicológica é negligenciada, entendida como um simples desentendimento de casal, quando na realidade pode ser tão agressiva quanto qualquer outra, e costuma ser a antecessora de tapas, socos e empurrões.

Intrínseca à sociedade de predominância patriarcal, a violência contra a mulher só costuma ser reconhecida pela sociedade quando causa danos físicos. É também essa violência que aparece nas estatísticas, de forma assustadora. De acordo com dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública (SSP), no ano passado, somente no Rio Grande do Sul, foram registradas 263 tentativas de feminicídio e 96 assassinatos.  Quando se trata de lesões corporais que não levaram à morte, o número cresce assustadoramente. Foram mais de 22 mil ocorrências.

E engana-se quem pensa que a violência é somente mais um indicativo da falta de segurança nas grandes cidades, estampada diariamente nos noticiários. A realidade de agressão contra a mulher é comum em cidades relativamente menores, como Passo Fundo.  Ainda segundo a SSP, somente no município, nos últimos cinco anos, mais de 6 mil ocorrências de ameaças foram registradas pela Lei Maria da Penha. Destas, mais de mil foram registradas em 2016. Desde 2012, foram mais de 3,3 mil denúncias de lesões corporais, nove feminicídios, 38 tentativas de feminicídio e 26 estupros. Em 2016, duas mulheres foram mortas em Passo Fundo, pelo simples fato de serem mulheres, e outras oito chegaram perto de fazer parte deste índice. É importante lembrar, também, do número de mulheres que sequer elencam as estatísticas, por medo de denunciar.

 

 Afora disso, longe de aparecer nos dados oficiais, a agressividade dirigida às mulheres aparece em situações do dia-a-dia e na realização de tarefas corriqueiras. Vem de todos os lados: de homens da família, de colegas de trabalho e até mesmo de desconhecidos. A jornalista e integrante do movimento Maria, Vem Com As Outras, Ingra Costa e Silva, cita alguns exemplos. “Acho que a gente passa por situações o dia inteiro. Tipo saiu de casa, um cara desnecessário falando que queria te chupar. Pra ele é só um elogio, ‘aceita, vadia, que fui ótimo e achei uma baranga como você digna de ser chupada. Ou quando o teu colega de trabalho homem diz que tem uma ideia genial e propõe o que você havia proposto antes, e ele, inclusive, tinha dito que a ideia era péssima. Ou então quando ele não respeita teu espaço de fala, em reuniões, decisões, e fica querendo fazer adendo o tempo todo, só que os adendos são gritados por cima da tua fala. É o tempo inteiro! É o comentário que diz que tu tens ou quer achar um marido rico só porque é mãe solo”.

Para a filósofa e professora na Universidade de Passo Fundo (UPF), Patricia Ketzer, o ódio em geral é mais direcionado às mulheres por viverem imersas em uma cultura machista. “Desde os primórdios, nossa cultura é patriarcal, o lugar reservado à mulher é a casa, e a esfera pública é masculina. Quando a mulher ousa ocupar a esfera pública ela tem que enfrentar ódio daqueles que não admitem mudanças. E quando sua forma de ocupar a esfera pública é demonstrando que ela também é um ser sexual esse ódio é ainda maior, já que o estereótipo feminino culturalmente construído é o de pureza, de santidade, de virgindade”. Ainda segundo a filósofa, quando a mulher demonstra um comportamento diferente daquele imposto pela sociedade, ela questiona estereótipos e ameaça a manutenção da cultura vigente, que a mantém presa a padrões de passividade. “Para impedir que as mulheres se libertem dessas amarras do patriarcado, toda vez que elas ocupam espaços que não condizem com esses estereótipos, elas são fortemente reprimidas, humilhadas publicamente, atacadas, tendo sua imagem pública altamente comprometida”, complementa.