Com 85 anos de fundação, a Sociedade Recreativa Cultural Beneficente Flor da Serra
é marca do combate racial na história de Carazinho

Numa época consumida pelo preconceito racial, onde negros eram impedidos de ocupar associações frequentadas por brancos, é fundada a Sociedade Recreativa Cultural Beneficente Flor da Serra. Originada em 21 de maio de 1932 através do contexto racial que predominava nos ares daquela sociedade, o espaço era voltado a atividades sociais e culturais para a comunidade negra do município.

• O Quilombo Flor da Serra localiza-se na rua Marechal Deodoro, 435, Centro, Carazinho/RS e é aberto para visitação a partir de agendamentos

A presidente atual do Quilombo Flor da Serra, Stéphany Souza, reforça a principal necessidade da criação desta sociedade. “O Flor da Serra foi originado pela necessidade de haver um lugar para que os negros se reunissem, pra que realizassem as atividades próprias da etnia afro-brasileira, antigamente em Carazinho não havia clubes sociais dos quais os negros podiam frequentar, se não pela porta de serviço, então foi por essa necessidade que surgiu o Flor da Serra, que muito tempo e até hoje, os mais velhos reconhecem apenas com a referência de “Clube dos Negros”, explica.

Quando adquirido o terreno da atual localização do Flor da Serra, no início dos anos 40, a obra de sua sede em alvenaria foi embargada por razões incompreendidas até hoje, acredita-se que uma delas tenha sido o racismo predominante na época. Apesar disso, os fundadores e sócios persistiram na construção e se mantiveram na luta pelo espaço, segundo Stéphany, este seria um dos motivos pelo prédio não possuir averbamento.

• A professora de história, Bruna Anacleto explica a importância do Flor da Serra como símbolo da resistência negra em Carazinho (Créditos: Felipe Granville)

A professora de história, Bruna Anacleto, explica uma das razões pelo qual o prédio não possui averbação, tendo apenas o terreno em nome da sociedade.  “A construção da atual sede que se iniciou nos anos 40, se finalizou na década de 50, sendo inaugurada na data de 19 de junho de 1950. Os motivos são diversos, alguns deles relacionados ao governo municipal da época, durante o mandato do prefeito Albino Hillebrand, que dificultou o processo de construção da sede atual, e que levou dez anos para poder ser finalizada. A edificação não possui tombamento histórico, e infelizmente isso impossibilita a captação de recursos em função dessa falta de averbamento”.

A presidente do Flor da Serra, Stéphany Souza, destaca que o espaço se localiza numa área central do município, mas em 1932 o contexto histórico era outro. “O próprio terreno foi vendido aos negros por sua localização ser desvalorizada na época, os senhores de posse não acreditavam que a cidade poderia se desenvolver e o Flor da Serra, o “Clube dos Negros”, encontrar-se atualmente no centro de Carazinho”, afirma.

“Atualmente o espaço está sendo mantido pelos próprios descendentes, as próprias pessoas que organizaram o clube. Hoje o local recebe visitas podendo ser agendadas pela própria página do Quilombo Flor da Serra e o clube segue teoricamente em funcionamento, apesar do número reduzidos de sócios e dos eventos. […] O Quilombo é considerado remanescente, um Quilombo urbano por conta desse movimento histórico e de resistência do Flor da Serra na cidade, a sociedade e o edifício fazem parte da história de Carazinho relacionada a cultura afro, além de ser um dos poucos remanescentes clubes de negros do país”, destaca a professora.

No início da década de 90, após alguns membros da Sociedade Recreativa Cultural Beneficente Flor da Serra tomarem conhecimento da Constituição Federal de 1988, inicia-se a união de movimentos sociais e entidades de classe, pois a opressão, racismo e a discriminação estavam presentes em sua história desde o princípio. Nesta época as especulações imobiliárias para que a sociedade deixasse o seu local de origem e migra-se para bairros menos favorecidos era gigantesca, com isso o grupo persistiu na luta para a proteção do patrimônio.

Com o envolvimento e a sua batalha diária em movimentos sociais e movimento negro, a representante do Quilombo Flor da Serra, Noeli Souza, obteve o conhecimento da Legislação Quilombola, Decreto Federal 4.887/03, decreto ao qual torna os territórios remanescentes de quilombo, com trajetória de luta e resistência pelo povo negro, impenhoráveis e inalienáveis.

• Certificado que autodefine o Flor da Serra como remanescente dos Quilombos

A comunidade do Flor da Serra encontrava-se desacreditada, quando em fevereiro deste ano, a sociedade símbolo da representatividade negra, quilombola e periférica de Carazinho recebeu diretamente em sua sede o certificado de Titulação de Terra Quilombola. Para Stéphany, a percepção de receber este certificado foi de libertação. “A sensação foi de redenção, foi emocionante, por toda a luta que a gente teve, porque a situação está resolvida. Ninguém vai derrubar o Flor da Serra, ele irá se manter exatamente em seu lugar, agora reconhecido. Entre dias de luta e dias de glória, a nossa sociedade chegou em um dos seus dias de glória”, ressalta a presidente.

A professora, Bruna Anacleto, destaca a importância deste símbolo de resistência da cultura negra na história do município:

Com o passar dos anos, o Flor da Serra deixou de ser um ambiente frequentado para festas e questões recreativas, Stéphany explica algumas mudanças na função social do clube. “No fim da década de oitenta e início dos anos 90, passou-se a lidar realmente com o social, para beneficiar o povo, fazer sopões, atividades que geram o empoderamento econômico, a elevação da autoestima, principalmente da população afro-brasileira, com teatros, danças e projetos relacionados a cultura, apesar disso, hoje não se tem muita visita. […] Todo mundo passa aqui na frente e pelo estado em que se encontra o prédio, acha que está abandonado.”

Após a notícia da titulação de remanescente de quilombo, Stéphany Souza, como a única sócia regular reuniu apoiadores que sempre estiveram à disposição da sociedade para um Assembleia Extraordinária realizada em janeiro de 2017, na qual foi eleita para assumir a atual diretoria da Sociedade Recreativa Cultural Beneficente Flor da Serra.

Em 2014 a sociedade sofreu um drástico abandono dos sócios do Flor da Serra e com isso, uma grande redução de visitas, por não possuir tombamento e consequentemente a falta de averbação, o local encontra-se depreciado.

O Quilombo Flor da Serra atualmente possuí pouca frequência de oficinas voltadas a cultura afro e movimentos sociais, apesar da atual situação, a presidente Stéphany, ressalta que o espaço encontra-se a disposição para quem deseja aprofundar-se na história do local, além de poder contemplar coleções e livros que fazem parte do acervo Flor da Serra.

Reportagem: Jéssica Medeiros Perin